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textos e pensamentos

Céu de Dentro

Palavras para aquilo que às vezes a gente sente antes de conseguir nomear.

Quando foi que sensibilidade virou fraqueza?

Tem gente que confunde fragilidade com sensibilidade.

Talvez porque aprendemos a admirar demais quem “aguenta tudo”. Quem não chora, não pede, não demonstra, não se abala. Como se força fosse a capacidade de passar pela vida sem ser tocado por ela.

Mas ser afetado não é sinal de um eu frágil. A possibilidade de sentir, reconhecer o que acontece dentro de si e dar significado a isso faz parte de uma vida emocional viva.

Winnicott nos ajuda a pensar o quanto uma existência pode se afastar de si quando precisa se adaptar demais ao que o ambiente espera. Às vezes, a pessoa não deixa de sentir. Aprende a esconder. Cria cascas. Se torna excelente em suportar.

Mas suportar tudo não é necessariamente saúde.

Existe uma diferença entre ter recursos para atravessar a dor e precisar se anestesiar para não senti-la. Sensibilidade não é incapacidade de suportar o mundo. É capacidade de percebê-lo.

Talvez amadurecer não seja aprender a sentir menos. Talvez seja construir dentro de si um lugar suficientemente seguro para poder sentir sem precisar se abandonar.

Se dar uma nova chance

Se dar uma chance depois de tantas outras terem parecido dar errado é uma travessia que raramente começa doce.

Antes da esperança, muitas vezes vem o medo de acreditar de novo. A vontade de se proteger. A lembrança de tudo aquilo que já não funcionou. E uma pergunta silenciosa: por que desta vez seria diferente?

A psicanálise não promete apagar o que aconteceu. Ela nos ajuda a perceber que o passado participa de nós sem precisar escrever sozinho tudo o que ainda pode acontecer.

Voltar a acreditar em si não é esquecer as quedas. É deixar de tratá-las como uma sentença.

Às vezes, a nova chance não parece coragem. Parece apenas um movimento pequeno, quase tímido, em direção a alguma coisa que ainda importa.

E talvez seja assim que a esperança reaparece: não como certeza, mas como possibilidade.

Quando passamos tempo demais tentando caber

Há pessoas que aprenderam muito cedo a observar o ambiente antes de observar a si mesmas.

Percebem o humor do outro, antecipam necessidades, mudam o tom, diminuem desejos, evitam conflitos. Tornam-se habilidosas em pertencer.

Essa capacidade pode ter sido uma forma inteligente de preservação. O problema é quando a adaptação deixa de ser recurso e vira condição para existir.

Winnicott descreveu algo importante sobre a vida que se organiza excessivamente a partir das exigências externas: por fora, tudo pode parecer funcionando. Por dentro, pode existir uma sensação difícil de nomear de não estar realmente vivendo a própria vida.

O trabalho terapêutico não é ensinar alguém a deixar de se importar com o outro. É ajudar a construir uma relação em que o outro possa existir sem que, para isso, você precise desaparecer.

Pertencer não deveria exigir abandono de si.

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